CELSO ÁLVAREZ CÁCCAMO

Um diálogo típico num estabelecimento duma cidade da Galiza, por exemplo numa cafetaria:
A Empregada: ¿Qué le pongo?
O Cliente: Um cafezinho. Com leite.
Empregada: Muy bien, con leche.
Cliente: E algo doce também. Algo com chocolate. Que tem?
Empregada: Tengo brownies. ¿Quiere?
Cliente: Sim, dê-me um.
Empregada: Son muy buenos.

Do balcão, minutos mais tarde:
Empregada (cordial): ¿Le gusta?
Cliente: Sim, muito bom.
O Cliente termina e aproxima-se do balcão:
Cliente: Que lhe devo?
Empregada: Son cuatro con ochenta.

O Cliente deixa uma nota de cinco euros:
Cliente: Deixe assim. Obrigado.
Empregada: Gracias.
Apesar das aparências do diálogo, Empregada e Cliente têm uma cousa em comum: as duas pessoas falam a sua segunda língua, a que aprenderam e começaram a usar bastante depois da infância. É evidente polo acento. O Cliente tem uma curiosidade:

Cliente: A propósito, de que parte do Brasil é? Empregada (sorridente): De Porto Alegre. ¿Lo conoce? Cliente: Não, não conheço, mas gostaria de ir.

Empregada: Ah, sí, es muy bonito.
Cliente: Bom, até outra.
Empregada: Hasta luego, gracias.
O Cliente, que tem anos a pensar sobre isto das línguas, confirma para si: “Definitivamente, galego, português e brasileiro são a mesma língua. E @s seus falantes, sobretudo nativ@s, também são iguais”.

O Cliente não sabe quando mudaremos, se é que mudaremos. Nem se nos deixarão mudar… se é que na verdade existe algo “superior” — em lugar de nós próprixs — que não nos deixa mudar agora. Recuperar o valor social da língua (não reproduzir o poder económico, não manter uma miragem apenas cultural) implica uma decidida viragem: novas conceções da língua, novas estratégias, novas posições de dignidade que desafiem o que parece “superior”.

Publicação original

Remédios para o galego. Coordenação: Diego Bernal e Valentim Fagim. Associaçom Galega da Língua.
http://www.atraves-editora.com

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